Era 1930. Um jovem médico recém-casado chegou a Itaguara com uma mala de livros de medicina, um estetoscópio e nenhuma experiência. Ele ficou dois anos. E o que viu aqui mudou a literatura brasileira para sempre.
O nome dele era João Guimarães Rosa. Você provavelmente o conhece como o autor de Grande Sertão: Veredas — considerado por muitos críticos o maior romance da língua portuguesa. O que poucos sabem é que a história começa aqui, nas estradas de barro de Itaguara. Formado orador da turma de medicina da Universidade de Minas Gerais, Guimarães Rosa poderia ter ficado em Belo Horizonte ou buscado uma cidade maior. Escolheu Itaguara por idealismo. O lugar era então um distrito simples, sem eletricidade, sem médico, com pouco mais de 600 habitantes espalhados pelo interior. Para um jovem de 22 anos recém-casado, foi um salto no escuro.
O médico que atendia a cavalo
Seu consultório ficava ao lado de casa, vizinho a uma farmácia precária. Quando os doentes não podiam ir até ele — e muitos não podiam — ele ia até eles. A cavalo. Percorrendo quilômetros de estrada de terra, sozinho, carregando a medicina que a cidade podia oferecer: elatério para problemas digestivos, ruibarbo para outros males, e parcerias com raizeiros locais quando os medicamentos de laboratório faltavam.
Em uma das raras entrevistas que concedeu ao longo da vida, Guimarães Rosa revelou como era aquele tempo: “Fui exercer a Medicina durante dois anos em Itaguara. Só lia Medicina. Naquele tempo, quando eu tinha que atender a doentes, montado a cavalo, longe, achava que qualquer coisa que eu lesse fora da Medicina me enfraquecia. Devorava tudo com angústia, voracidade. Eu não podia aceitar, por exemplo, que doente meu morresse.” E houve uma vez em que o doente morreu. O padre já estava ao lado do corpo para encomendar a alma enquanto o jovem doutor ainda aplicava injeções, recusando-se a aceitar o fim. Passou a noite em claro, fechado no quarto, sem jantar, tomado pelo peso da perda. Só se tranquilizou quando soube que a família do falecido reconhecia a luta que ele havia travado para salvar o doente.
O que ele ouvia nas estradas
Mas havia algo que acontecia naquelas cavalgadas que não estava nos livros de medicina. A cada casa que visitava, a cada conversa nas beiras de estrada, a cada caso contado em voz baixa pelos moradores, Guimarães Rosa ouvia. E guardava tudo. No período de não mais que dezoito meses na região, observou personagens típicos e guardou de memória casos antigos e novos, verídicos, improváveis ou fantasiosos, histórias de crimes e de feitiçarias, e detalhes minuciosos de bichos e plantas, que encheram as quinhentas páginas dos originais de Sagarana, escrito alguns anos depois. Revistaecologico Um desses personagens era Seu Nequinha — nome verdadeiro Manoel Rodrigues de Carvalho, raizeiro e curandeiro local que professava a religião espírita. Tudo indica que Seu Nequinha, de Itaguara, influenciou o personagem Compadre Quelemém em Grande Sertão: Veredas — aquele que aconselha Riobaldo sobre seus dilemas existenciais mais profundos. Cfm O homem de Itaguara virou personagem de um dos maiores romances do mundo.
As histórias que viraram livro
Guimarães Rosa deixou Itaguara em 1932, chamado pela Revolução Constitucionalista. Seguiu para Belo Horizonte, depois para a carreira diplomática, para Hamburgo, para Paris. Mas as histórias que colheu nas estradas de barro da nossa região foram com ele. Anos depois, em 1937, já longe e tomado de saudade, ele começou a escrever Sagarana. O livro só seria publicado em 1946, mas cada conto carregava o cheiro e a textura do interior mineiro que ele havia vivido de perto. Os fazendeiros, os vaqueiros, os curandeiros, os casos de feitiçaria — tudo aquilo que o povo de Itaguara contava e que ele absorvia em silêncio. Sagarana esgotou as duas primeiras edições no mesmo ano de lançamento. Dez anos depois veio Grande Sertão: Veredas, que seria eleito um dos cem melhores livros de todos os tempos numa pesquisa internacional. O estetoscópio do doutor João, como era chamado em Itaguara, acabou numa exposição na Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 2008.
Três dias antes de morrer
A história de Guimarães Rosa tem um final que parece saído de um de seus próprios contos. Após décadas evitando assumir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras — dizem que ele temia a morte depois da posse — tomou assento em 16 de novembro de 1967. No discurso, disse uma frase que havia pronunciado pela primeira vez quando um colega de faculdade morreu: “As pessoas não morrem. Ficam encantadas.” Três dias depois, em 19 de novembro de 1967, João Guimarães Rosa teve um infarto e morreu.
Itaguara não tem placa nem monumento ao médico que aqui viveu e que aqui colheu as histórias que o tornaram imortal. Mas tem algo mais duradouro: está nas páginas de um livro que o mundo inteiro leu e que começa, em essência, nas estradas de barro que o doutor João percorria a cavalo, de casa em casa, ouvindo a vida das pessoas. “Como isto é bonito”, ele teria dito ao chegar. Difícil dar razão a quem quer que discorde.
Fontes: Enciclopédia Itaú Cultural; Revista Ecológico — O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa (UFMG); Humanos CFM; Câmara Municipal de Itaguara.
Fonte: Portal Vertentes






