A mesma sessão da Câmara de Itaguara que já havia sido marcada por embates sobre orçamento e prioridades avançou para um terreno ainda mais sensível: a saúde mental. E, novamente, o que deveria ser consenso virou confronto.



O novo projeto apresentado pela vereadora Cássia Greco, coassinado pelo vereador Bruno, propõe a criação de um programa permanente de atenção à saúde mental, intitulado “Você Importa”, com ações contínuas ao longo dos 12 meses do ano. A proposta também prevê a revogação de uma lei anterior, de autoria do ex-vereador José Hilton, sob o argumento de atualização e ampliação das políticas existentes.
Na prática, porém, o plenário mostrou que o debate vai muito além do mérito da causa.
A saúde mental é reconhecida como uma demanda urgente em Itaguara. Casos de sofrimento psicológico e até suicídio fazem parte de uma realidade que exige atenção constante. E é justamente por isso que o tom da discussão chamou atenção.
De um lado, a defesa do projeto sustentou que a nova proposta amplia o alcance da legislação anterior e estabelece diretrizes mais completas, inclusive com caráter permanente.
Do outro, o vereador Geraldinho trouxe um contraponto técnico e direto. Segundo ele, a não aprovação do projeto não interrompe nenhuma política pública existente. Ao contrário, há um plano de trabalho já em execução dentro da Secretaria de Saúde, incluindo ações contínuas conduzidas pelo CERSAM.
Ele afirmou ainda que compartilhou com os demais vereadores a legislação vigente, reforçando que o município já possui instrumento normativo ativo e funcional. Para Geraldinho, revogar a lei atual sem necessidade pode enfraquecer um sistema que já opera.
O ponto mais sensível, no entanto, foi outro: a competência.
Na avaliação do vereador, o projeto avança sobre atribuições do Poder Executivo ao definir organização e execução de políticas públicas, o que pode gerar insegurança jurídica. Ele foi enfático ao afirmar que vereadores devem legislar e fiscalizar, não impor ações que gerem despesas ou estrutura administrativa.
A resposta veio em tom elevado.
Durante o debate, a vereadora Cássia acusou Geraldinho de atuar contra seus projetos de forma sistemática e afirmou que ele teria buscado profissionais da saúde antes da votação para “boicotar” a proposta. O clima esquentou de forma evidente, com troca de acusações e pedido por imparcialidade.
Geraldinho rebateu dizendo que atua com independência e reforçou sua posição política. “Sou político, não politiqueiro”, afirmou. Também deixou claro que é favorável às políticas de prevenção ao suicídio, mas contrário ao formato do projeto apresentado. “Até hoje não entrei com projeto que cria despesa para o município”, disse, criticando o que chamou de tentativa do Legislativo de assumir papel do Executivo.
O vereador Everton entrou no debate defendendo o projeto e destacando sua atuação como servidor da saúde, afirmando que o diálogo poderia ter seguido sem o nível de estresse registrado.
Já o vereador Carona adotou um tom mais cauteloso. Reconheceu a importância da proposta, mas afirmou ter dúvidas e defendeu mais discussões antes da votação final.
E foi justamente esse posicionamento que mudou o rumo do projeto.
Diante do cenário de tensão e falta de consenso, Carona solicitou vista, pedindo mais tempo para análise. O pedido foi concedido, suspendendo a votação.
O episódio deixou claro que, apesar da gravidade do tema, o debate ainda está longe de um ponto de equilíbrio.
Entre a urgência da saúde mental e os limites legais da atuação legislativa, a Câmara de Itaguara expôs mais uma vez suas divisões internas. E, no meio disso, permanece a questão central: como avançar em políticas públicas sem transformar uma pauta essencial em mais um campo de disputa política.








