Passa Tempo é uma cidade com 8 mil habitantes, a cerca de 150 km de Belo Horizonte, nos Campos das Vertentes. Fica no alto, a quase mil metros de altitude, com vista para as serras que recortam o horizonte. Tem cavalos Mangalarga, tapetes que vão parar em todo o Brasil, e um nome que há séculos intriga quem passa por ali.
Por que Passa Tempo?
A resposta não é uma. São duas. E as duas juntas dizem algo bonito sobre como a história de um lugar pode ter versões que se complementam em vez de se cancelar.
A versão do bandeirante
Tudo começa por volta de 1670. O governo português havia decidido tomar medidas sérias contra os índios Cataguases, que dominavam o que viria a ser Minas Gerais. Começaram as grandes expedições de bandeirantes pelos sertões mineiros.
Uma das mais importantes incursões pelos sertões de Minas dos Cataguases foi a de Lourenço Castanho Taques, o Velho, que por volta de 1670 a 1675 adentrou os sertões mineiros. Ele foi um dos que pisaram no solo dessa região e, possivelmente, o criador do topônimo Passatempo. Lourenço Castanho Taques era um dos bandeirantes mais temidos da época — homem de fortuna, veterano de dezenas de expedições, conhecido por atravessar territórios que ninguém ousava entrar. Mas mesmo os mais durões precisavam parar. E a região onde hoje fica Passa Tempo era boa para isso: altitude amena, água à disposição, terra fértil, paisagem que desarmava qualquer pressa.
A primeira versão do nome seria uma denominação criada pelos bandeirantes que, ao fazerem pouso na região, diziam: “vamos passar o tempo ali” — no sentido de descansar. E, posteriormente, outros diziam: “vamos parar no Passatempo”, daí nasceu o nome Paragem do Passatempo ou Matos do Passatempo.
Era assim que os nomes surgiam no Brasil colonial. Sem burocracia, sem decreto. Um apelido que viajantes davam a um lugar bom para acampar virava o nome que todo mundo usava, que aparecia nos documentos de sesmaria, que ficava para sempre. E ficou. Em 1734, Manoel Francisco Barrosas penetrou nos Matos ou Paragem do Passatempo e solicitou Sesmaria. O nome já estava nos papéis. A região já era conhecida assim.

Mas essa é só a metade da história.
As duas velhinhas na porta de casa
A outra versão não tem data. Não tem nome de bandeirante. Não tem documento de sesmaria.
Tem duas senhoras idosas, uma roca, e a resposta mais simples do mundo a uma pergunta de passante.
Há também uma lenda popular que fala de duas velhinhas que viviam fiando à porta de sua casa. Quando algum viajante passava por ali e perguntava: “Como vão, minhas senhoras?”, elas respondiam: “Vamos passando o tempo”. Daí, teria surgido o nome Passa Tempo.
Fiar era o trabalho de uma vida inteira no interior mineiro do século XVIII. A roca — o instrumento para fiar a lã ou o algodão — ficava na mão de manhã até a noite. Enquanto conversava, enquanto descansava, enquanto olhava o movimento da rua. Era uma atividade tão constante que a resposta das velhinhas fazia todo sentido: vamos passando o tempo, da forma mais literal possível.
Os viajantes ouviram. Repetiram entre si. E o lugar onde as duas velhinhas fiavam virou Passa Tempo.
O monumento que a cidade escolheu ter
Quando Passa Tempo quis criar um símbolo para si mesma, não escolheu um bandeirante. Não escolheu uma pedra, uma serra, um rio.
Devido a essa lenda, o município adotou como símbolo duas velhinhas fiando a roca. Em 1995 foi feito em bronze o Monumento às Velhinhas Fiandeiras, símbolo do Município de Passa Tempo. O monumento fica na rotatória central da cidade, na Avenida Donato Andrade. Duas figuras em bronze, sentadas, com suas rocas. Imóveis, mas com aquela postura de quem está no meio de uma tarefa que nunca termina. A cidade poderia ter escolhido homenagear os bandeirantes que deram o nome ao lugar na versão histórica. Escolheu as velhinhas. É uma decisão que diz muito sobre como Passa Tempo se enxerga.
O fio que atravessa gerações
E tem algo que poucos percebem: a lenda das velhinhas fiandeiras não está tão desconectada da realidade da cidade quanto parece.

Passa Tempo é, até hoje, conhecida como uma das referências na confecção de tapetes arraiolos em Minas Gerais. Essa atividade é coordenada por cooperativas e pequenas empresas responsáveis pela distribuição dos produtos em todo o Brasil e inclusive no exterior.
O tapete arraiolos é um bordado à mão em lã, sobre tela de juta ou algodão, com técnica que chegou ao Brasil pelos portugueses. As referências mais antigas à técnica de fabrico datam de finais do século XV. Wikipedia Séculos depois, ela ainda é praticada nas casas de Passa Tempo — por mulheres que aprenderam com as mães, que aprenderam com as avós, numa cadeia ininterrupta de mãos e agulhas e paciência.

A imagem das velhinhas fiando na porta de casa não é só uma lenda. É quase uma fotografia do que a cidade sempre foi.
Qual das duas versões é verdadeira?
A pergunta honesta é: ninguém sabe com certeza.
A primeira versão teria sido criada pelos bandeirantes, que desejavam “passar o tempo ali”. Numa segunda versão, possivelmente a mais aceita, a origem do termo vem da lenda das duas velhinhas que fiavam constantemente na porta de suas residências. As duas versões podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Os bandeirantes chamaram o lugar de Passatempo porque era bom para descansar. Anos depois, duas velhinhas responderam a um viajante com as mesmas palavras — e a lenda nasceu como eco do nome que já existia, ou como uma segunda fundação, mais humana e mais próxima do cotidiano do lugar.
O que interessa é o que ficou. Um nome que toda criança da região entende na primeira vez que ouve. Um monumento de bronze que celebra não heróis em armadura, mas duas senhorias trabalhando na calçada. E uma cidade que, até hoje, exporta para o mundo inteiro o artesanato de mãos pacientes.
Passa Tempo, afinal, é exatamente isso: um lugar que aprendeu, como as velhinhas, que nem tudo precisa ser urgente. Que algumas coisas boas demoram. Que fiar um tapete leva tempo. Que construir uma cidade leva mais ainda.
E que, às vezes, a melhor resposta para qualquer pergunta é simplesmente essa: estamos passando o tempo.



