Colunista Prof. Rafael Penido Vilela Rodrigues
Eu caminhava pelas ruas da capital mineira quando presenciei uma cena aparentemente banal. Era uma mãe diante de uma mesa em uma praça de alimentação, prestes a sentar com seu filho, quando perguntou ao pequeno se o lugar “estava bom” para sentarem. A criança respondeu com gritos, recusas e exigências.
Bastaram alguns segundos para que a mãe, constrangida diante do pequeno soberano, cedesse completamente. A vontade da criança prevaleceu e aautoridade do adulto desapareceu. Mudaram de mesa, mas a birra da criança ainda persistiu. Somente quando a mãe lhe entregou um celular a situação se resolveu – ao menos por alguns instantes.
A cena durou poucos minutos, mas permaneceu comigo durante dias. Ela reuniu, em sua banalidade, um dos principais dilemas da educação contemporânea, que vou resumir neste texto.

Em primeiro lugar, pensei: até que ponto crianças devem ser ouvidas? Como professor, sei bem o valor de uma educação baseada na escuta e na valorização da experiência pessoal do aluno. Mas também sei a importância da disciplina e da imposição de limites. Ao passo que reconheço que há algo de bárbaro numa educação fundada exclusivamente no medo: aquela em que o pai ou o professor era uma figura quase militar, diante da qual os filhos se escondiam debaixo da cama apenas ao ouvir os passos no corredor. O terror nunca foi pedagogia; foi apenas domesticação pelo medo.
Mas é preciso reconhecer que o pêndulo parece ter atravessado violentamente para o outro extremo. Se antes havia excesso de rigidez, hoje muitas vezes há ausência completa de limites. E uma sociedade sem limites não produz liberdade. Liberdade não é onipotência. Ser livre não significa fazer tudo o que se deseja. Uma sociedade sem limites produz apenas indivíduos incapazes de lidar com a frustração, com a diferença e com a existência do outro.
A filósofa Hannah Arendt (1906-1975) afirmava que educar é “assumir responsabilidade pelo mundo” diante daqueles que acabam de chegar a ele. Uma criança não nasce pronta para a vida pública. Ela precisa ser introduzida gradualmente no mundo comum, nas regras, nos códigos, nos limites e nas responsabilidades que sustentam a convivência humana. Isso significa que a autoridade dos pais não é sinônimo de autoritarismo. O autoritário humilha, sufoca e violenta. A autoridade verdadeira orienta, sustenta e conduz. O autoritarismo impõe pela força. A autoridade educa pelo exemplo e pela responsabilidade.
Uma criança ainda não possui maturidade emocional, intelectual e ética para decidir tudo sozinha. Transformar filhos em pequenos soberanos domésticos talvez seja uma das grandes ilusões pedagógicas do nosso tempo.
Há pais que parecem ter medo de usar a palavra NÃO. Negociam absolutamente tudo. Consultam crianças sobre questões que deveriam ser responsabilidade exclusiva dos adultos. A refeição, a rotina, a hora de dormir, o limite do consumo, o tempo de tela… Tudo se torna objeto de negociação infinita. Como se frustrar uma criança fosse uma forma de violência contra a sua individualidade.
Mas o fato é que a frustração é parte formativa da experiência humana. Ninguém amadurece sem aprender que o mundo não gira em torno de seus desejos imediatos.
O pediatra e psicanalista Donald Winnicott (1896-1971) defendia que a criança necessita de um ambiente suficientemente estável para se desenvolver emocionalmente. Isso inclui cuidado, afeto e acolhimento. Mas também destacava a importância do limite e da disciplina, porque a ausência completa de barreiras não produz autonomia; produz angústia. A criança precisa encontrar adultos capazes de sustentar o mundo quando ela ainda não consegue fazê-lo sozinha.
Entretanto, os adultos de hoje parecem cansados do esforço de educar. Talvez por isso a tecnologia tenha se tornado uma espécie de babá universal. Quantas vezes vemos crianças completamente absorvidas por vídeos infinitos do TikTok enquanto os pais respiram aliviados pelo silêncio momentâneo? O celular se tornou umaanestesia cotidiana. Não se educa mais pelo diálogo ou pela convivência, mas pela distração contínua das telas.
O problema é que nenhuma tecnologia substitui a experiência humana da autoridade, do vínculo e da formação ética.
Essas crianças chegam então à escola. E ali encontram algo radicalmente diferente do ambiente doméstico permissivo. A escola possui regras. Há hora de sentar, hora de levantar, hora de falar, hora de brincar, hora de comer. O espaço escolar funciona por uma lógica de disciplina dos corpos e organização do tempo. A escola geralmente se torna o primeiro espaço onde a criança descobre que o mundo não gira exclusivamente ao redor de suas vontades. E elas passam a odiar exatamente isso: o fato de que ali o desejo individual não reina absoluto como em casa.

Sei que toda disciplina pode degenerar em abuso quando perde o sentido humano. Michel Foucault (1926-1984) mostrou como as instituições modernas também operam mecanismos de vigilância e normalização. Mas reconhecer isso não significa concluir que toda forma de disciplina seja opressão. Há uma diferença profunda entre formar para a convivência e esmagar subjetividades. A própria vida social nos exige limites permanentes. Não existe uma sociedade onde cada indivíduo transforme seu desejo pessoal em lei absoluta. Sem regras mínimas de convivência, mergulharíamos naquilo que Thomas Hobbes chamou de “guerra de todos contra todos”. A sociedadenasce justamente da renúncia parcial aos impulsos imediatos em favor de um mundo compartilhado.
Às vezes penso que estamos vivendo uma crise silenciosa da autoridade. Os pais já não desejam ser pais; desejam ser amigos dos filhos. Os adultos já não querem educar; querem ser aprovados pelas crianças. E aí existe uma contradição profunda: a criança que cresce sem limites frequentemente se torna um adolescente incapaz de lidar com negativas, críticas, frustrações e responsabilidades. E depois se torna um adulto cheio de questões mal resolvidas.
Na escola, isso aparece de forma brutal. Vemos crianças e adolescentes que não suportam esperar, ouvir, dividir atenção ou aceitar correções. Não porque são“más”, mas porque em casa estão sendo educadas dentro da lógica da centralidade absoluta do próprio desejo. E o mundo real, cedo ou tarde, rompe violentamente essa fantasia.
Creio que o grande desafio de nossos tempos é reinventar a educação sem retornar ao rigor autoritário do passado e sem cair na permissividade do presente. O caminho não está nem no medo nem na submissão passiva aos desejos infantis. Está na construção de uma autoridade afetiva, firme e responsável com o futuro. Dizer “não” também é um ato de cuidado, porque educar é amar suficientemente uma criança para não abandoná-la aos próprios impulsos.
A pergunta que fica é: que tipo de sociedade estamos construindo ao formar crianças incapazes de aceitar limites?
Temo que a resposta esteja no fato de que estamos construindo uma sociedade onde ninguém tolera frustrações, onde toda contrariedade é interpretada como arbitrariedade e onde o desejo individual sobressai sobre qualquer outra coisa.
A conclusão a que chego é que a educação de berço está em crise e, por isso, o debate já não deve girar apenas em torno de métodos pedagógicos ou estilos parentais. O que está em jogo é o tipo de ser humano que desejamos formar e, consequentemente, o futuro da própria civilização. Afinal, as crianças que hoje não aprendem a lidar com limites serão os adultos que amanhã ocuparão nossas escolas, empresas, governos e famílias. A sociedade do futuro já está sendo construída dentro de casa.


