Quem frequenta o centro de Itaguara há mais de uma década lembra bem de como funcionava. O estacionamento rotativo girava as vagas, os clientes encontravam onde parar, o fluxo nas ruas comerciais era outro. O sistema tinha problema? Tinha. Mas o comércio respirava. Depois que a pandemia chegou e o rotativo foi suspenso, ele simplesmente não voltou. E o centro foi sentindo, mês a mês, o custo dessa omissão.
Percorra hoje a Rua Padre Gregório, a Avenida Dr. Antônio Geraldo de Oliveira, a Praça do Santuário, a Rua Professor Almeida, a Avenida Nossa Senhora das Dores, a Rua José Justiniano Silva, a Rua Luiz Augusto da Silva e a Rua dos Passos. Tente encontrar uma vaga disponível em horário comercial perto do banco, da prefeitura, do fórum, das lojas, das padarias, dos hotéis, dos restaurantes, dos supermercados ou das academias. O exercício diz tudo que qualquer análise técnica diria, só que em tempo real.
Vagas preferenciais em número desproporcional. Espaços de táxi sem demanda equivalente. Áreas de carga e descarga que viraram garagens informais. Faixas elevadas que consomem largura preciosa de ruas já estreitas. Vagas de farmácia, vagas de moto. E no espaço que sobra, o carro do próprio dono do estabelecimento, que chegou às 8h e só sai às 18h.
O cliente comum, aquele que financia o comércio local, dá a volta, não acha onde parar e vai embora. O comerciante sente no caixa, reclama da queda no movimento e, em muitos casos, não faz a conexão com o carro que ele mesmo estacionou na frente da própria loja de manhã cedo. O ciclo é perfeito na ironia e desgastante na repetição.
A indicação que abriu o caminho
O movimento partiu do vereador Vitinho da Loja. Empresário do comércio local e legislador, ele conhece o problema dos dois lados: sabe o que é perder cliente por falta de vaga e sabe o que é ter poder de agenda na Câmara Municipal. Ele enviou indicação formal ao Executivo pedindo o retorno do estacionamento rotativo. Uma indicação não obriga a administração a agir. Mas quando ela encontra eco, faz a roda girar.
E encontrou. A Prefeitura de Itaguara, sob o comando do Prefeito Luan, recebeu a proposta com bons olhos. Mais do que isso: assumiu o protagonismo da etapa seguinte. O Executivo elaborou as atualizações e correções necessárias, adequou o projeto à realidade atual da cidade e o encaminhou formalmente à Câmara Municipal. O texto passou pela discussão em comissão e está encaminhado para votação em plenário.
Em mensagem que circulou nas redes sociais, o vereador foi objetivo: “Estou desde o ano passado correndo atrás para a volta do rotativo em nossa cidade. O projeto teve algumas alterações e chegou na câmara pra nós vereadores discutir na reunião de comissão e entrar para a votação. Ele sendo aprovado, em algumas semanas o rotativo está ativo novamente.”
A lei já existe. Sempre existiu.
Este é o ponto que mais incomoda, e por boas razões. A Lei Ordinária nº 1.685/2018 já regulamenta o estacionamento rotativo em áreas demarcadas pelo município de Itaguara. Ela não precisa ser criada. Precisa ser respeitada. O que o projeto em tramitação traz são as atualizações necessárias para adequar a norma ao momento atual, com ajustes no mapeamento de vagas, nas categorias e nas condições operacionais do sistema.
Itaguara não está inventando uma solução. Está retomando uma que já funcionou, com uma lei que já existe e um modelo que a própria cidade já testou. A questão nunca foi técnica. Foi sempre de vontade política.
Vale registrar
O vereador Vitinho destacou que a arrecadação do rotativo será destinada ao Asilo e à APAE de Itaguara. Estacionar dentro das regras deixa de ser só conveniência e passa a ser contribuição direta às instituições mais vulneráveis da cidade. Um argumento que deveria encerrar boa parte da resistência.
Vai funcionar de novo?
Funcionou antes. Pode funcionar de novo. O que determina o sucesso desta retomada é o que sempre determinou: fiscalização presente, regras claras e disposição real de fazer cumprir o que for votado. Sem esses três elementos, qualquer sistema de rotativo vira mais uma placa nas ruas da cidade.
O que é diferente agora é o alinhamento. Câmara e Prefeitura no mesmo campo não é dado como certo em nenhum município. Aqui, neste momento, essa condição está posta. O vereador puxou a fila. O Executivo respondeu com projeto concreto. A votação se aproxima.
Itaguara já viveu com o rotativo funcionando e sabe o que perdeu quando ele parou. Não é um experimento. É uma retomada. E o momento para fazê-la é agora.
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Ref.: Lei Ordinária nº 1.685/2018 · Câmara Municipal de Itaguara


